LEGIÃO JOANA D'ARC

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O PRESÉPIO DE GÚBIO



Engastada nas faldas dos Apeninos, a modorrenta e pequenina Gúbio de vez em quando acolhia amorosamente o homem que iluminava toda a Úmbria. Quando Francisco de Assis chegava, os pastores largavam os cajados, o gado parava de mugir, os regatos cantavam alegremente, os passarinhos pulavam contentes de ramo em ramo, e os velhos, as mulheres e as crianças olhavam o céu azul, agradecendo a JESUS a vinda do mensageiro da paz e da bondade.
Um dia o Francisco chegou triste. Era véspera de Natal, Andava peregrinando por Perusa, estivera em Assis e Espoleto e, por toda parte vira a mesma febre, o mesmo entusiasmo, a mesma alegria. Eram os preparativos para a comemoração do dia de JESUS. Eram os assados, os bolos, as compotas, as frutas, as massas e os vinhos que deveriam enfeitar as mesas na tão esperada hora da ceia. Eram roupas vistosas tiradas das arcas e passadas a ferro com esmero, pois todos queriam mostrar-se brilhantes na grande festa.
Francisco porém, estava triste. Em nenhum semblante vislumbrara piedade cristã; estava triste. Em nenhuma casa notara recolhimento; em nenhum coração sentira JESUS. Sentou-se, abatido, num banco tosco, fechou os olhos, e deixou que o pensamento o levasse à antiga Palestina. Esteve em Belém, no Tiberiades, em Cafarnaum, na Samaria, em Jericó, na Betânia, em Caná, no Jordão, em Jerusalém, no Calvário ... E viu JESUS pobre, sem ter onde nascer; viu José mourejando de sol a sol; viu Maria, humilde e sofredora; viu JESUS pregando a caridade e o amor ao próximo; viu JESUS caluniado e esbofeteado; viu JESUS orando no Monte das Oliveiras, na véspera da crucificação. E ouviu JESUS dizer: "Eu sou a ressurreição e a vida"; "Ninguém vai ao Pai senão por mim"; "Não ajunteis tesouros na Terra"; "Olhai os lírios do campo, não fiam nem tecem; não obstante, vestem-se com mais pompa do que os áulicos de Salomão"; "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida". Francisco abriu os olhos, e duas lágrimas rolaram pelas faces pálidas. Eis, então, que se levantou, e nos lábios antes contraídos, um sorriso aflorou. Uma idéia, uma idéia de Santo, fê-lo correr por toda a aldeia. Por que não erguer, numa pequenina praça de Gúbio, um presépio vivo? Por que não reunir toda a gente e comemorar o Natal recordando o Salvador? Foi a todas as casas, a todos convenceu, e à tardinha tudo estava pronto. Maria, José, o boi, o carneiro, o burrinho, a manjedoura. Só faltava JESUS. A pequenina igreja de Gúbio não tinha uma imagem do Menino. Um bebê não suportaria o duro frio que gelava a cidadezinha. Um pastor quis ir, correndo, a uma aldeia próxima, na esperança de conseguir a imagem tão desejada. Francisco porém, não consentiu. E a noite chegou, alumiada por uma multidão de estrelas.
E, ajoelhados ao pé do presépio vivo, todos ouviriam-no exclamar com ardor: Glória a DEUS NAS ALTURAS! Paz na terra aos homens de boa vontade! No mesmo instante, uma figurinha de imensa doçura apareceu deitada na palha que Maria delicadamente afofara. Era o Menino JESUS... Era o Menino JESUS que entrava no coração da gente simples de Gúbio.
Há dois mil anos, uma ESTRELA, de primeira grandeza, brilhou no firmamento. Era JESUS que nos trazia a sua LUZ DO EVANGELHO.
Feliz natal.

JOAQUIM S. THIAGO

Federação Espírita Brasileira

domingo, 6 de dezembro de 2009

PASSANDO PELA TERRA

Sempre útil não te esqueceres de que te encontras em estágio educativo na Terra.
Jornadeando nas trilhas da evolução, não é o tempo que passa por ti, mas, inversamente, és a criatura que passa pelo tempo.
Conserva a esperança em teus apetrechos de viagem.
Caminha trabalhando e fazendo o bem que puderes.
Aceita os companheiros do caminho, qual se mostram, sem exigir-lhes a perfeição da qual todos nos vemos ainda muito distantes.
Suporta as falhas do próximo com paciência, reconhecendo que nós, os espíritos ainda vinculados à Terra, não nos achamos isentos de imperfeições.
Levanta os caídos e ampara os que tropecem.
Não te lamentes.
Habitua-te a facear dificuldades e problemas, de ânimo firme, assimilando-lhes o ensino de que se façam portadores.
Não te detenhas no passado, embora o passado deva ser uma lição inesquecível no arquivo da experiência.
Desculpa, sem condições, quaisquer ofensas, sejam quais sejam, para que consigas avançar, estrada afora, livre do mal.
Auxilia ao outros, quanto estiver ao teu alcance, e repete semelhante benefício, tantas vezes quantas isso te for solicitado.
Não te sirvam de estorvo ao trabalho evolutivo as calamidades e provas em que te vejas, já que te reconheces passando pela Terra, a caminho da Vida Maior.
Louva, agradece, abençoa e serve sempre.
E não nos esqueçamos de que as nossas realizações constituem a nossa própria bagagem, onde estivermos, e nem olvidemos que das parcelas de tudo aquilo que doamos ou fazemos na Terra, teremos a justa equação na Vida Espiritual.

CALMA - FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER (EMMANUEL)

sábado, 5 de dezembro de 2009

NO CAMINHO DO AMOR

EM LEMBRANÇA AOS 75 ANOS DE DESENCARNE DE HUMBERTO DE CAMPOS VERAS ( IRMÃO X), OCORRIDO EM 05.12.1934, NO RIO DE JANEIRO.

Em Jerusalém, nos arredores do Templo, adornada mulher encontrou um nazareno, de olhos fascinantes e lúcidos, de cabelos delicados e melancólicos sorriso, e fixou-o estranhamente.
Arrebatada na onda de simpatia a irradiar-se dele, corrigiu as dobras da túnica muito alva; colocou no olhar indizível expressão de doçura e, deixando perceber, nos meneios do corpo frágil, a visível paixão que a possuíra de súbito, abeirou-se do desconhecido e falou, ciciante:
-Jovem, as flores de Séforis encheram-me a ânfora do coração com deliciosos perfumes. Tenho felicidade ao teu dispor, em minha loja de essências finas...
Indicou extensa vila, cercada de rosas, à sombra de arvoredo acolhedor, e ajuntou:
-Inúmeros peregrinos cansados me buscam a procura do repouso que reconforta. Em minha primavera juvenil, encontram o prazer que representa a coroa da vida. E' que o lírio do vale não tem a carícia dos meus braços e a romã saborosa não possui o mel de meus lábios. Vem e vê! Dar-te-ei leito macio, tapetes dourados e vinho capitoso ... Acariciar-te-ei a fronte abatida e curar-te-ei o cansaço da viagem longa! Descansarás teus pés em água de nardo e ouvirás, feliz, as harpas e os alaúdes de meu jardim. Tenho a meu serviço músicos e dançarinas, exercitados em palácios ilustres!...
Ante a incompreensível mudez do viajor, tornou, súplice, depois de leve pausa:
-Jovem, porque não respondes? Descobri em teus olhos diferentes chama e assim procedo por amar-te. Tenho sede de afeição que me complete a vida. Atende! Atende!...
Ele parecia não perceber a vibração febril com que semelhantes palavras eram pronunciadas e, notando-lhe a expressão fisionômica indefinível, a vendedora de essências acrescentou uma tanto agastada:
-Não virás?
Constrangido por aquele olhar esfogueado, o forasteiro apenas murmurou:
-Agora, não. Depois, no entanto, quem sabe?!...
A mulher, ajaezada de enfeites, sentindo-se desprezada, prorrompeu em sarcasmos e partiu.
Transcorridos dois anos, quando Jesus levantava paralítico, ao pé do Tanque de Betesda, venerável anciã pediu-lhe socorro para infeliz criatura, atenazada de sofrimento.
O Mestre seguiu-a, sem hesitar.
Num pardieiro denegrido, um corpo chagado exalava gemido angustioso.
A disputada marcadora de aromas ali se encontrava carcomida de úlceras, de pele enegrecida e rosto disforme. Feridas sanguinolentas pontilhavam-lhe a carne, agora semelhante ao esterco da terra. Exceção dos olhos profundos e indagadores, nada mais lhe restava da feminilidade antiga. Era uma sombra leprosa, de que ninguém ousava aproximar.
Fitou o Mestre e reconheceu-o.
Era o mesmo mancebo nazareno, de porte sublime e atraente expressão.
O Cristo estendeu-lhe os braços, tocados de intraduzível ternura e convidou:
-Vem a mim, tu que sofres! Na Casa de Meu Pai, nunca se extingue a esperança.
A interpelada quis recuar, conturbada de assombro, mas não conseguiu mover os próprios dedos, vencida de dor.
O Mestre, porém, transbordando compaixão, prosternou-se fraternal, e conchegou-a, de manso...
A infeliz reuniu todas as forças que lhe sobravam e perguntou, em voz reticenciosa e dorida
-Tu?... O Messias nazareno?... O Profeta que cura, reanima e alivia?!... Que viste fazer, junto de mulher tão miserável quanto eu?
Ele, contudo, sorriu benevolente, retrucando apenas:
-Agora, venho satisfazer-te os apelos.
E, recordando-lhe a palavra do primeiro encontro, acentuou, compassivo:
-Descubro em teus olhos diferentes chama e assim procedo por amar-te

Espírito Irmão X
Do livro Contos e Apólogos. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O FRADE E O ESPIRITISMO



“Uma vez que a alma não pode ser encontrada sem o corpo e todavia não é corpo, pode estar neste ou naquele corpo e passar de corpo em corpo.” – Giordano Bruno.

1. No dia 17 de fevereiro deste ano, completaram-se quatrocentos e um anos da execução de Giordano Bruno, queimado vivo, juntamente com suas obras, em virtude de sentença da Inquisição Italiana, que o condenou pela prática de heresia. O crime que lhe foi imputado decorreu do fato de as suas idéias se colocarem em total desacordo com a ortodoxia católica, principalmente no que diziam respeito à pluralidade dos mundos habitados, à reencarnação e à salvação do homem através de seu relacionamento direto com Deus, cuja imanência também defendia. A decisão condenatória, retrato característico da intolerância e da ignorância da época, entendeu que se tratava de “um herege obstinado e impenitente ” e determinou sua expulsão da “santa e imaculada igreja porque se tornara indigno de sua misericórdia”. Suas obras, tidas também à conta de “heréticas e falsas”, foram devidamente inscritas no Index.
Não obstante todo o rigor com que se houve o Tribunal Eclesiástico, os cardeais que o integraram, num rasgo de fingida generosidade, acrescentaram um adendo à sentença e, hipocritamente, apelaram ao Tribunal Secular, “a fim de que não pusessem em perigo a sua vida, nem que sofresse perigo de mutilação”. Nesse instante, ao perceber a pusilanimidade dos juízes e o enorme remorso que já lhes carcomia, por antecipação, a relaxada consciência, disse-lhes, alto e bom tom: “Talvez vós que pronunciais a minha sentença, estejais mais aterrorizados do que eu que a recebo.”
Como era de se esperar, a “piedosa súplica” nenhum efeito produziu e dez dias após o julgamento foi executado no Campo das Flores, em Roma.

2. A Igreja não podia admitir idéias semelhantes às que o teimoso ex-frade dominicano insistia em sustentar, defender e divulgar, nem com elas conviver, uma vez que isso significava o total desmantelamento de sua estrutura, construída à custa de imposições e coerções, de concessões de favores e privilégios temporais, e até de vidas e sacrifícios alheios.
Os interesses e ambições das classes dominantes, em que os poderes civil e religioso se confundiam numa verdadeira e única amálgama, edificaram uma sociedade egoísta e corrupta, alicerçada sobre um fanatismo religioso e uma ignorância quase que institucionais. Essa situação convinha ser mantida a qualquer preço, porquanto era a que melhor se prestava ao comércio das vantagens materiais e espirituais em que o Vaticano se achava empenhado. Os meios empregados para sustentá-la e defendê-la não se preocupavam jamais em respeitar os direitos de todos que se atreviam a pensar de modo diferente do adotado pelos seguidores do credo romano. Sob esse particular aspecto, os pretensos adeptos do Cristo legaram à Humanidade tristes e lamentáveis exemplos, ainda hoje relembrados, com horror e repulsa, como é o caso das Cruzadas e do lugubremente famoso Tribunal da Inquisição.

3. Foi uma época caracterizada pelo terror religioso, em decorrência, sobretudo, da atuação desse tribunal. A Europa vivia intimidada pelas verdadeiras atrocidades praticadas em nome de Deus. Dominicanos e Jesuítas pontificavam em matéria de fé, imposta, inexoravelmente, à custa do “crê ou morre”.
As perspectivas de um mundo melhor eram mínimas e todos que ousavam lutar por este ideal tiveram o mesmo destino que teve Giordano Bruno. Aliás, ele previu o seu fim, exatamente em face dessa situação que imperava na civilização ocidental. Nos proêmios do Despacho da Besta Triunfante e Sobre o Infinito, o Universo e os Mundos, declarou-se perfeitamente consciente de que seria “odiado e censurado, perseguido e assassinado”.
Não lhe faltou a percepção de que não poderia esperar êxito com seu estudo e trabalho.
Ao contrário, sabia que o prudente seria “calar-se antes de falar”, mas a sua convicção na eternidade, que não via com as nuanças de um lugar de tédio, ociosidade e de omissão, o levou a esforçar-se para “fender a corrente adversa do rio impetuoso, quando mais vê aumentada a veemência da mesma por seu trajeto agitado, profundo e precipitado”.
Por isso, empenhou-se em luta encarniçada contra a ignorância, o preconceito, o dogma e a intolerância, achando “ser digno de mercenários ou escravos e contrário à dignidade humana sujeitar-se e submeter-se” (Os Pensadores, Abril Cultural, São Paulo, 1972, Vol I, p. 230).

4. Giordano Bruno retornou ao mundo físico, vivendo esse ambiente, na pequena cidade de Nola, perto de Nápoles, no ano de 1548. Seu nome de batismo era Filipe, mais tarde mudado para Giordano quando vestiu o hábito de clérigo no Convento napolitano de São Domingos. Depois de dez anos de vida conventual, doutorou-se em Teologia, em 1575. Estudou, nesse período, entre outros assuntos e matérias, toda a filosofia grega e medieval, a cabala judaica e a obra de Copérnico, ao qual dedicava profunda admiração.
Impressionou-se também com Ário, principalmente em virtude de sua postura contrária à divindade de Jesus, e foi um leitor incansável de Erasmo de Rotterdam. Esses estudos e essas companhias teriam que fatalmente afastá-lo da ortodoxia católica, o que lhe ensejou constantes censuras e admoestações de seus superiores. Como não se curvava às mesmas, foi, afinal, processado por heresia, mas conseguiu salvar-se fugindo para Roma. A partir daí sua vida foi uma aventura constante, porquanto, depois de pequena demora nessa cidade, abandonou as vestes sacerdotais e passou a peregrinar pelo norte da Itália ensinando Astronomia. Desterrado por força da perseguição das autoridades eclesiásticas, viveu em Genebra, onde aderiu ao Calvinismo. Todavia, sua permanência na nova corrente religiosa foi muito pequena. Dela logo se afastou em face da intolerância sectarista dos seus adeptos. A seguir, peregrinou pela Europa, acabando por dar com os costados em Veneza, onde finalmente foi preso, em maio de 1592, graças à traição de João Mocenigo, em cuja casa se achava hospedado. Esteve recolhido ao cárcere até a sua execução. Durante todo esse período se viu sob a tutela do Santo Ofício, sendo que a maioria do tempo – sete anos – em Roma.

5. Seu temperamento, combativo e resoluto, talvez tenha sido o seu maior adversário, numa época em que, mais do que em outras, predominavam a covardia e a subserviência em face dos poderosos.
O seu vínculo inicial com a Igreja, principalmente a sua condição de integrante da Ordem de São Domingos, foi outro fator primordial de acentuado antagonismo que as autoridades do clero romano lhe dedicaram. A cúpula da Igreja depositava uma grande confiança nos “frades negros”, como eram chamados os dominicanos. A defecção de Bruno significava um abalo profundo na sistemática campanha que a ordem, como principal agente da Inquisição, mantinha contra os hereges de todos os tipos. Ela abria uma brecha na fortaleza, até então tida como inexpugnável, que havia sido erguida em defesa da fé que os “cães do senhor” (domini canes) – como eram chamados pelo populacho – haviam erguido graças à violência e à crueldade.
Jamais poderiam, pois, admitir a hipótese de que algum de seus membros se insurgisse contra o que sustentavam e defendiam, em nome de possíveis interesses superiores da ortodoxia (a respeito, H. G. WELLS, História Universal, Companhia Editora Nacional, SP, 1968, Vol. VI, p. 437).

6. Seus conceitos, seus pontos de vista e suas idéias falam muito de perto ao Espiritismo.
Muitos, guardadas as devidas proporções e levando-se em conta o desenvolvimento científico, filosófico e religioso do momento histórico em que viveu, harmonizam-se profundamente com os ensinamentos que os Espíritos transmitiram a Allan Kardec na Codificação. A sua concepção de Deus era extremamente adiantada para a época e está muito mais para O Livro dos Espíritos que para os erros e enganos do Escolasticismo dominante. “Fascinado pela imensidão do universo, que a astronomia do seu tempo estava revelando, afirmou que Deus é imanente nesse universo infinito, o princípio da atividade.
Doutrinava que Ele é a união de todos os opostos no universo, uma união sem opostos que o espírito humano não pode alcançar.” (S. E. Frost. Jr., Ensinamentos Básicos dos Grandes Filósofos, Ed. Cultrix Ltda., SP, 1958, p. 120.)
Esse seu pensamento foi várias vezes reafirmado. Segundo Victor Matos de Sá, um de seus estudiosos (Introdução a Giordano Bruno, que antecede a tradução portuguesa de Acerca do Infinito e dos Universos dos Mundos, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1967, p. 9 e seguintes) a imanência de Deus se estendia a “um universo infinito e actual como conseqüência natural do poder divino e criador”. Daí ele partiu para afirmar que a natureza é divina e para a conclusão de que o Universo é um todo em que nada é imóvel. Nessa movimentação universal, incluía a Terra, assumindo a “execrável” postura de defensor da Teoria de Copérnico, embora não compartilhasse da visão que este tinha do mundo. Concordava com ele a respeito de a Terra não ser o centro do universo, mas não acatava o seu raciocínio de este centro ser ocupado pelo Sol.

7. A pluralidade dos mundos habitados, fato que, ainda hoje, não é bem recebido pela ortodoxia romana, configurava uma heresia praticamente indefensável. Ele teve a coragem de sustentá-la, bem como a doutrina das vidas sucessivas. Entendia que o conceito da existência de mundos infinitos abria as portas para o conceito de infinitas possibilidades humanas. A respeito escreveu: “Se existem mundos infinitos, então por que não poderá haver infinitas oportunidades para explorá-los? Uma pessoa, quer esteja dentro ou fora do corpo, nunca será completa. Ela tem a oportunidade de experimentar a vida de muitas formas diferentes. Assim como existe à nossa volta um espaço infinito, também a potencialidade, capacidade, receptividade, maleabilidade e matéria são infinitas” (Giordano Bruno, in Sobre o Imenso e o Inumerável, citado por Elizabeth Clare Prophet, Reencarnação, o Elo Perdido do Cristianismo, Nova Era, Rio, 1999, p. 22-23).
Ainda sobre a mesma questão, afirmou em Acerca do Infinito: “Existe apenas um espaço único, uma imensidão única e vasta a que podemos chamar Vácuo; nele existe uma infinidade de mundos como este em que vivemos e nos desenvolvemos. Consideramos este espaço infinito; nele existem mundos infinitos semelhantes ao nosso” (op. cit. p. 22).

8. Um de seus argumentos que mais incomodou a Igreja era o que dizia respeito à possibilidade de os homens se salvarem independentemente de qualquer vínculo com ela, uma vez que a salvação poderia operar-se através do relacionamento direto com Deus. A questão já não se resolvia mais apenas em torno de um tema de teologia, mas passava a interessar de perto à própria sobrevivência econômica do Catolicismo, que se sustentava, em grande escala, na venda de indulgências ou de lugares no céu, de favores e benefícios divinos, numa autêntica exploração da credulidade pública. A aceitação de sua tese implicaria um sensível e irreparável desfalque na arrecadação de Roma, porquanto atingiria uma das mais rentáveis de suas fontes. Instituições, normas, usos, costumes e determinações pontifícias – como é o caso do sempre lembrado Livro das Taxas da Sagrada Chancelaria e da Sagrada Penitenciaria Apostólica, editado sob o pontificado de Leão X, em 1518 e que, segundo Emmanuel (A Caminho da Luz, psicografado por F. C. Xavier, 25. ed. FEB, p. 175) continha “o preço de absolvição para todos os pecados, para todos os adultérios, inclusive os crimes mais hediondos” –, perderiam sua eficácia e todo o esforço despendido para que fossem coercitivamente impostos ao homem nenhum resultado haveria de produzir...
Contudo, nada há de novo nesta postura de Bruno, porquanto ele apenas observou o que Jesus pregara a respeito, sobretudo quando deixou muito claro que a verdadeira religião prescinde de formalismos e de rituais e que se encontra livre de todo e qualquer liame ou compromisso com agrupamentos organizados e dirigidos pelos homens (Mateus, 6:5-8, e João, 4:23-24). Giordano Bruno entendeu, ao contrário da maioria dos pensadores da época, que o homem, na sua escalada evolutiva, prescinde de filiar-se a esta ou àquela seita religiosa, competindo-lhe, apenas e tão--somente, a fiel observância dos postulados fundamentais de nova lei que Ele veio enunciar: – “Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos.” (João, 8:31.)

9. Não se pretende elevar a figura de Giordano Bruno a patamares hierárquicos incompatíveis com a sua própria realidade. A toda evidência, ele não pode, sob o prisma dos dados referentes à sua história, ser tido à conta de possuidor de um elevadíssimo grau de evolução, circunstância que o situaria entre os “Espíritos Superiores” da classificação kardequiana. Isso implicaria o mais rematado açodamento, fruto, quem sabe, de uma análise superficial de sua controvertida e impulsiva personalidade. Não há dúvida, contudo, que foi um espírito bastante adiantado para a época, tendo em vista não só o seu vasto conhecimento nos campos das ciências e da filosofia, mas, também, a ousadia e desassombro com que defendia e divulgava as suas idéias. Se não foi um “Espírito Sábio”, nos termos da mencionada classificação de Allan Kardec, esteve muito próximo disso. Altamente significativo foi o fato de que as suas conclusões acerca do Universo, principalmente aquelas que dizem respeito à infinidade dos mundos, decorreram do seu misticismo e de seus conhecimentos filosóficos. Esse detalhe que, aos olhos da crítica materialista, poderia implicar um demérito na análise de sua obra, cresce de importância sob a ótica espírita, uma vez que configura uma das primeiras tentativas concretas de se reconhecer, como realidade natural, a aliança da Ciência com a Religião. Verificou-se, pois, na hipótese, uma antecipação de algumas centenas de anos do início da missão a que, neste sentido, o Espiritismo se propõe, conforme se vê do pronunciamento de Kardec (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. I, no 8, Ed. FEB).
A física moderna, no que tange às novas conquistas sobre o infinito e o universo, corrobora inúmeras de suas idéias. Estas, por sua vez, estão em profunda conformidade com os ensinamentos transmitidos a respeito do assunto pela Espiritualidade. Dentro, pois, de uma linha de raciocínio lógico, a conclusão a que se chega é que a reencarnação de Bruno, juntamente com a de outros Espíritos de categoria semelhante, teve, entre outros objetivos, a preparação de terreno por onde o Espiritismo haveria de, três séculos depois, dar os seus primeiros e definitivos passos. E, no caso específico de sua obra e de sua vida, elas não se limitaram apenas a um dos três aspectos com que a Doutrina se apresenta, porquanto, embora não tenha cuidado da elaboração dos princípios científicos que regulam a comunicação entre os dois planos da vida, entreviu diversos ângulos que interessam ao Espiritismo como ciência e tratou expressamente de temas que se filiam à filosofia e à religião espíritas.

10. Inimigo declarado da ignorância e da superstição – detalhe que, mais uma vez, o aproxima de Kardec e do Espiritismo –, imputou às duas a responsabilidade por considerável número dos males da Humanidade. Os seus juízes acabaram por, involuntariamente, dar a este fato uma importância que, parece, nem sequer foi por eles percebida.
Na farsa de que se constituiu o seu julgamento, a única obra de sua autoria nele mencionada foi a Expulsão da Besta Triunfante. A Igreja, preocupada em salvaguardar a qualquer preço a figura do Papa, assestou contra ela suas mais poderosas e beatíficas baterias.
Errou, porém, o alvo. A “besta” nenhuma relação possuía com o chefe do Catolicismo, porquanto “representava o lado malévolo da natureza humana, como a superstição e a ignorância. Ele defendia uma religião baseada na razão, através da qual o homem pudesse purgar-se da ‘besta’ existente dentro de si” (Arthur D. Imert, in Introdução para The Expulsion of the Triumphant Beast, tradução inglesa, Nova Brunswick, N. J. Rutgers, University Press, 1964, p. 70). Há, iniludivelmente, entre o pronunciamento de Geordano Bruno e aqueles dos Espíritos e do Codificador, exaltando a necessidade premente de se processar a reforma íntima do homem, uma total e absoluta semelhança.
Todavia, não por esse motivo, que jamais foi objeto de maior cuidado de sua parte, mas pelas razões retroenumeradas, a Igreja viu nele um artefato perigosíssimo. Reuniu, então, sob a presidência do Cardeal Bellarmino, um grupo de oito cardeais, cujo único objetivo era destruir tão mortífera arma. Não se tem notícia do êxito de tal comissão.
Sabe-se apenas que o temido cardeal se impressionou vivamente com os heréticos argumentos da obra. Seu orgulho e vaidade foram excitados ao máximo, tanto que fez questão que se gravasse, em sua lápide, a frase: “Pela força subjuguei o cérebro dos orgulhosos.”
Mal sabia ele que, três séculos depois, um professor francês haveria de abalar os carcomidos alicerces religiosos vigentes, proclamando, entre outras verdades, a excelência
da religião natural, a possibilidade do intercâmbio direto da criatura com o Criador e a absoluta e incontestável necessidade de superação do “lado malévolo da natureza humana” através da observância plena das imorredouras lições do Mestre da Galiléia.

11. O “ex-frade negro” levantou dúvidas quanto à Santíssima Trindade, impugnou a encarnação do Filho, o que importa na negativa da divindade de Jesus, e reafirmou, por várias vezes, sua crença na reencarnação, usando, para tanto, a conhecida passagem do Eclesiastes: – “Nada há novo debaixo do Sol.”
Seria, portanto, uma grande ilusão esperar-se para ele outro fim que não a fogueira do auto-de-fé. Queimaram seu corpo, queimaram seus livros, mas não conseguiram queimar as suas idéias, que, na verdade, não eram exclusivamente suas, mas de todos os Espíritos, encarnados ou não, que lutam para erradicar deste planeta as sombras da ignorância e do atraso que tanto concorrem para a infelicidade de seus habitantes. Duzentos e sessenta e um anos depois, tendo como cenário a Espanha de tantos e tantos radicalismos e atrocidades religiosas, um novo auto-de-fé tentava também sufocar ideias semelhantes. Só que, desta feita, a sociedade já não mais aceitava o bárbaro espetáculo das tochas humanas e os algozes da Inquisição tiveram de limitar o seu inconformismo e a sua violência à queima dos dois primeiros livros da Codificação Kardequiana.
Nos dois episódios, as idéias ressurgiram mais fortes das cinzas e permaneceram vivas e atuantes, conclamando os homens a encarar de frente a verdade, a razão e a fé, única forma que os irá libertar de seus erros e vícios e permitir a implantação do Reino de Deus entre nós.

Reformador Dez.2001
JOSÉ CARLOS MONTEIRO DE MOURA

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

SEMEAR ESPERANÇA


Eles existem aos milhões.
Habitam casebres e palácios.
Muitos ocultam-se sob o verniz de posições transitórias.
São os desesperados do mundo.
Você os encontrará nas ruas, no local de trabalho, em seu próprio lar.
Criaturas que se viram colhidas pela provação e perderam o ânimo e o equilíbrio.
Este viu o afeto partir para o além, sem compreender que a vida continua.
Aquele foi alcançado pela enfermidade de longo curso.
Outro se viu ante decepções e passou a desacreditar de todos.
Diante deles, não critique nem questione. Ajude. Ouça com interesse e auxilie com amor.
Cada espírito é um campo a ser cultivado.
Semear esperança é dever de todo aquele que já encontrou a luz da verdade.
Por certo, a Misericórdia Divina sabe como amparar os sofredores.
Entretanto, Jesus não dispensa a colaboração de todos os aprendizes do bem, para amenizar o sofrimento e recuperar a esperança para quem chora.

Autor: Scheilla
Psicografia de Clayton B. Levy. Do livro: A Mensagem do Dia

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

ENCONTRO DE NATAL

Recolhes as melodias do Natal, guardando o pensamento engrinaldado pela ternura de harmoniosa canção...
Percebes que o Céu te chama a partilhar os júbilos da exaltação do Senhor nas sombras do mundo.
Entretanto, misturada ao regozijo que te acalenta a esperança, carregas a névoa sutil de recôndita angústia, como se trouxesse no peito um canteiro de rosas orvalhado de lágrimas!...
É que retratas no espelho da própria emoção o infortúnio de tantos outros companheiros que foram inutilmente convidados para a consagração da alegria. Levantaste no lar a árvore da ventura doméstica, de cujos galhos pendem os frutos do carinho perfeito; entretanto, não longe, cambaleiam seguidores de Jesus, suspirando por leve proteção que os resguarde contra o frio da noite; banqueteias-te, sob guirlandas festivas, mas, a poucos passos da própria casa, mães e crianças desprotegidas aguardando o socorro do Cristo, enlanguescem de fadiga e necessidade; repetes hinos comovedores, tocados pela serena beleza que dimana dos astros; no entanto, nas vizinhanças, cooperadores humildes do Mestre choram cansados de penúria e aflição; abraças os entes queridos, desfrutando excessos de reconforto; contudo, à pequena distância, esmorecem amigos de Jesus, implorando quem lhes dê a bênção de uma prece e o consolo de uma palavra afetuosa, nas grades dos manicômios ou no leito dos hospitais...
Sim, quando refletes na glória da Manjedoura, sentes, em verdade, a presença do Cristo no coração!
Louva as doações divinas que te felicitam a existência, mas não te esqueças de que o Natal é o Céu que se reparte com a Terra, através do eterno amor que se derramou das estrelas.
Agradece o dom inefável da paz que volta, de novo, enriquecendo-te a vida, mas divide a própria felicidade, realizando, em nome do Senhor, a alegria de alguém!...

Meimei
LIVRO ANTOLOGIA MEDIÚNICA DO NATAL - Psicografia: Francisco Cândido Xavier - Espíritos Diversos

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

EXISTÊNCIAS PASSADAS


"No esquecimento das existências anteriormente transcorridas, sobretudo quando foram amarguradas, não há qualquer coisa de providencial e que revela a sabedoria divina?".
Gravíssimos inconvenientes teria os nos lembrarmos das nossas individualidades anteriores. Em certos casos, humilhar-nos-ia sobremaneira. Em outros, nos exaltaria o orgulho, peando-nos, em conseqüência, o livre-arbítrio. Para nos melhorarmos, dá-nos Deus exatamente o que nos é necessário e basta: a voz da consciência e os pendores instintivos. Priva-nos do que nos prejudicaria. Acrescentamos que, se nos recordássemos dos nossos precedentes atos pessoais, igualmente nos recordaríamos dos outros homens, do que resultariam talvez os mais desastrosos efeitos para as relações sociais. Nem sempre podendo honrar-nos do nosso passado, melhor é que sobre ele um véu seja lançado “. (Allan Kardec –” O Livro dos Espíritos “, Q. 394).

Há uma tendência especial, entre certos adeptos pouco avisados da Doutrina Espírita, para investigarem sobre o próprio passado espiritual, a ver se descobrem o que foram e o que fizeram em existências pregressas. Certamente que, já com um século de Codificação e em plena florescência da Revelação, vem chegando o tempo de os Espíritos encarnados sentirem em si mesmos, através das emersões da subconsciência, ativadas pelas inquietações da mediunidade, os enredos em que se comprometeram outrora.
Os códigos da Terceira Revelação, ou Espiritismo, muito criteriosamente esclarecem o meio de a criatura saber, com segurança, quem foi, o que fez e onde viveu antes da presente existência. Dedicando-se ao estudo sério e à meditação e consultando o próprio íntimo e suas tendências, sem se deixar levar pelos arrastamentos do orgulho e da vaidade, necessariamente terá as faculdades predispostas às irradiações da própria mente. As recordações, embora veladas, discretas, as reminiscências que jazem ocultas nos recessos do seu ser, evoluirão o necessário para que ela se aposse de algo a respeito de si mesma. Será, portanto, uma faculdade da alma, que se desenvolverá com o cuidadoso cultivo moral e mental.
Se, com a devida atenção, se dessem ao estudo da Doutrina, teriam compreendido, desde muito, esse ponto essencial e melindroso da mesma, sem os riscos das mistificações tão comuns nas consultas feitas aos médiuns.
Vemos, então, mediante tais consultas, uma multidão de Espíritas a se julgarem antigos fidalgos europeus reencarnados, príncipes, duques, heróis de guerras e de grandes batalhas em revoluções celebres, e até reis e rainhas! Existem mesmo, aos montes, Catarinas de Médicis, Marias Antonietas, Neros, Napoleões Bonapartes, Tiradentes e tantos outros vultos do passado.
Não diremos que tais migrações sejam impossíveis, pois que a nobreza mundial é milenária e esses nobres teriam de reencarnar em alguma parte, visto que e reencarnação é lei invariável para todos. Todavia, à luz mesma da Terceira Revelação, convirá se faça um reparo sensato sobre aquela possibilidade, ou seja, de serem os caros aprendizes do Espiritismo, ou não aprendizes, fidalgos reencarnados. Ainda que o sejam, não deverão esquecer, logo ao primeiro exame, que é possível já tenham vivido como escravos africanos ou não africanos, depois de haverem sido fidalgos; que já esmolaram pelas ruas, chagados e miseráveis, como expiação urgente das inconseqüências da nobreza que aviltaram, e que já sucumbiram no fundo de prisões infectas ou tombaram sob a ignomínia de um ferro assassino, porque assim o exigiu a consciência própria, em ânsias de dolorosas, mas remissores resgates! Não deverão, outrossim, esquecer de que reis, rainhas, príncipes, duques e heróis, não obstante testas coroadas, foram igualmente tiranos, celerados, homicidas, rapinadores, incendiários, perseguidores, perjuros, adúlteros, hipócritas, falsos crentes tripudiando sobre os Evangelhos!
Se, portanto, vivestes na Idade Média e ali fostes condestáveis, por exemplo, ficai certos de que também levantastes fogueiras cruéis para incinerarem criaturas frágeis e indefesas, vossas irmãs de Humanidade!
Se vivestes na bela e decantada Espanha, aí ocupando solares soberbos e poderosos tronos, lembrai-vos de que estes mesmos grãos-senhores que os ocuparam se tornaram responsáveis pelos crimes da Inquisição, que por períodos seculares ali assumiu proporções estarrecedoras.
Se na aristocrática Inglaterra vivestes, ou na belicosa Alemanha, não percais de vista que nos países anglo-saxões a intolerância da Reforma cometeu atrocidades contra os míseros católico-romanos, idênticas às que nos países latinos, cometeu contra míseros luteranos a intolerância católico-romana, e que vós lá estivestes, entre ambas, cometendo insultos contra Deus na pessoa do vosso próximo!
Se, na França gloriosa e tão amada, participastes do famigerado governo da Rainha Catarina de Médicis, lembrai-vos dos dias trágicos de São Bartolomeu, quando andastes matando pobres defensores do Evangelho, para satisfação de torpes paixões alheias, as quais bajulastes servindo-vos do nome de uma religião como ignóbil desculpa e não justa realidade!
Se, nos dias sombrios do terror, na França ainda, cargos importantes exercestes, tendo em mente que ajudastes a mover a guilhotina para decapitar inocentes subjugados pelo furor de muitos, e também que fostes regicidas ímpios, trucidadores de mulheres e até crianças!
E se, na Roma dos Césares, fostes tribunos ou patrícios, envergando peplos elegantes e mantos solenes e vistosos..., recordai os uivos dos leões nos circos, leões que açulastes contra os defensores do Cristianismo nascente, os quais morreram para que o mundo herdasse as virtudes do perdão, da esperança e do amor, recomendados pela Suprema Lei!
Assim sendo, meus caros amigos, vós, que vos julgais reis, rainhas, príncipes e heróis reencarnados, não vos esqueçais de que, com esta remota glória de tronos e mantos, de espadas e coroas, arrastais também, ainda na presente existência, a conseqüência deprimente de crimes e abusos vergonhosos e inomináveis! Não olvideis que fostes grandes criminosos a quem Jesus de Nazaré enviou as bênçãos do Consolador como auxílio para que vos reergais do tremendal de trevas em que o fausto mergulhou o vosso Espírito!
Agora vos cumpre esquecer esse passado que para nada vos valeu, senão para vos infelicitar a alma e o destino, a fim de que, através dos conselhos e da misericórdia do Alto, possais entrar, finalmente, nas sendas do Dever, de que vos afastastes nos passados tempos, passado esse do qual tanto vos envaideceis ainda!

Paz!

Ignácio Bittencourt
(Página recebida pela médium Yvonne A. Pereira, em 02.09.59, no Rio de Janeiro).

(Publicada no "Reformador", de novembro de 1959).

domingo, 29 de novembro de 2009

A TENTAÇÃO DO REPOUSO


Num campo de lavoura, grande quantidade de vermes desejava destruir um velho arado de madeira, muito trabalhador, que lhes perturbava os planos e, em razão disso, certa ocasião se reuniram ao redor dele e começaram a dizer:
- Por que não cuidas de ti? Estás doente e cansado...
- Afinal, todos nós precisamos de algum repouso...
- Liberta-te do jugo terrível do lavrador!
- Pobre máquina! A quantos martírios te submetes!...
O arado escutou... escutou... e acabou acreditando.
Ele, que era tão corajoso, que nem sentia o mais leve incômodo nas mais duras obrigações, começou a queixar-se do frio da chuva, do calor do Sol, da aspereza das pedras e da umidade do chão.
Tanto clamou e chorou, implorando descanso, que o antigo companheiro concedeu-lhe alguns dias de folga, a um canto do milharal.
Quando os vermes o viram parado, aproximaram-se em massa, atacando-o sem compaixão.
Em poucos dias, apodreceram-no, crivando-o de manchas, de feridas e de buracos.
O arado gemia e suspirava pelo socorro do lavrador, sonhando com o regresso às tarefas alegres e iluminadas do campo ...
Mas, era tarde.
Quando o prestimoso amigo voltou para utilizá-lo, era simplesmente um traste inútil.
A história do arado é um aviso para nós todos.
A tentação do repouso é das mais perigosas, porque, depois da ignorância, a preguiça é a fonte escura de todos os males.
Jamais olvidemos que o trabalho é o dom divino que Deus nos confiou para a defesa de nossa alegria e para a conservação de nossa própria saúde.

Xavier, Francisco Cândido. Da obra: Pai Nosso.
Ditado pelo Espírito Meimei.
19a edição. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1999.

sábado, 28 de novembro de 2009

JOANA, A GUERREIRA



TEXTO NÃO ESPÍRITA

Joana d’Arc foi uma das mulheres mais fortes e guerreiras que o mundo já conheceu, pertencia a uma família de camponeses, foi educada para ser uma boa esposa, para isso aprendia as prendas domésticas. Fora isso, não recebera outro tipo de educação, era praticamente analfabeta. Ao completar 13 anos a jovem passou a ouvir vozes sagradas: São Miguel, Santa Catarina e Santa Margarida. A primeira orientação feita por essas vozes à Joana foi de que a menina deveria permanecer virgem para obter a salvação de sua alma. Mais tarde as vozes passaram a orientá-la sobre política, dizendo que deveria coroar o príncipe herdeiro do trono, Carlos, mais conhecido como delfim, e salvar a França dos ingleses. Joana foi concebida no ápice da Guerra dos Cem Anos e a situação francesa era crítica tanto na política como na economia. A Igreja estava enfraquecida devido às limitações do papado, para sobreviver em meio aos poderosos a Igreja saiu em busca de alianças.
Com a França em decadência, a Igreja optou por aliar-se à Inglaterra, que até então era a mais forte. Para Joana e sua família, tais alianças significava o início de tragédias, já que o feudo era vizinho de Lorena, onde se localizava o vilarejo de Domrémy. Com isso, as terras da família d’Arc passaram a sofrer constantes ataques. Na época em que os borguinhões se apossaram de vez de Domrémy, em 1428, Joana tinha 16 anos de idade. Com os conselhos das vozes santas na cabeça, decidiu que iria coroar o rei. Tinha consciência de que a paz só seria possível com uma França forte, e que o país só atingiria tal objetivo quando o delfim recebesse a coroa na catedral de Notre-Dame de Reims, conforme a tradição. Decida, Joana convenceu o padrinho, um soldado que já havia se aposentado, a acompanhá-la até a cidade de Vaucouleurs. Ela tinha o objetivo de persuadir o nobre Roberto de Baudricourt, chefe militar e senhor local, a lhe conceder um exército. No primeiro encontro se impressionou com a força e a coragem da jovem, mas não cedeu um exército de imediato. Na espera de uma resposta favorável, Joana ficou vagando por Vaucouleurs. Nesse tempo acabou levando muito soldado na conversa.
Ao tomar conhecimento de que cada vez mais soldados juravam lealdade à Joana, Baudricourt não teve alternativa. D’Arc partiu para o castelo de Chinon, quartel-general do delfim Carlos, juntamente com o duque de Anjou, com os cavaleiros que havia amealhado e com os soldados que Baudricourt finalmente lhe concedera. Ao chegar a Chinon, Carlos já havia sido informado sobre a jovem camponesa, provavelmente louca, que dizia ouvir vozes sagradas. Ficando meio receoso, permaneceu dois dias recluso, discutindo com a corte se deveria ou não recebê-la. Por fim d’Arc convenceu Carlos de que estava ali com um propósito e que era digna de ser recebida por ele. Com tudo, delfim equipou e abençoou Joana em sua Marcha até Orléans. Apesar de estarem em menor número, os franceses contavam com a força, coragem e garra de Joana. A batalha durou alguns dias e os ingleses recuaram.
Em maio de 1429, a França obteve sua primeira grande vitória militar. Joana d’Arc estava pronta para sua missão, a de coroar o delfim, sendo assim, em julho de 1429, Carlos recebeu a coroa do rei na Catedral de Notre-Dame de Reims. Com isso, Joana havia atingido seu objetivo maior, só que sua ambição militar falou mais alto. Partiu para Paris a fim de expulsar os ingleses, em setembro de 1429 invadiu Paris, onde foi derrotada, seus soldados partiram em retirada, mas seu espírito guerreiro resistiu. Joana foi capturada, levada para a fortaleza de Beaulieu e, logo em seguida, para o castelo de Beaurevoir. Tentou escapar de ambas as prisões, mas não obteve êxito, Joana foi vendida pelos borguinhões por 10 mil libras aos ingleses. Em 1430, foi levada a julgamento no tribunal inglês, sendo conduzido pelo bispo de Beauvais, Pierre Cauchon. todas as acusações eram de ordem religiosa: bruxa, herege, idólatra, entre outras. Martírio que durou seis meses, sua sentença foi ser queimada viva.
Cumpriu-se então a sentença, Joana foi queimada viva em uma fogueira aos 19 anos de idade. Foi o fim da heroína francesa.
Foi uma guerreira? E que tipo de Guerreira foi?
Joana empregava consistentemente uma linguagem direta e dedicava-se a resultados práticos, identificava-se com os aspectos mais ativos da cavalaria: o auto-sacrifício heróico, o esquecimento de si mesmo para salvar outros ou em defesa de uma grande causa. Era uma mestra dos símbolos, mas escolhia símbolos simples e de fácil interpretação, seu estandarte tinha a flor-de-lis e as palavras “Jesus Maria”. Que vocação mais direta da religião e do patriotismo seria possível? Seu simbolismo era acessível a todos, nobres e Plebeus igualmente, nada tinha a ver com a cultura da cavalaria, a não ser que a usava a serviço da guerra: seu estandarte era tanto um farol prático quanto um sinal.
Joana apenas arrastada pelo fascínio sobrenatural de seus sonhos e proposta de missão a cumprir segundo a vontade divina e sem saber nada sobre arte de guerra comandou os soldados rudes com seu ar angelical e inocente.

GORDON, Mary. Joana D’Arc: breve biografia. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2000.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

AUTO-DESOBSESSÃO


Se você já pode dominar a intemperança mental...
Se esquece os próprios constrangimentos, a fim de cultivar o prazer de servir...
Se sabe cultivar o comentário infeliz, sem passá-lo adiante...
Se vence a indisposição contra o estudo e continua, tanto quanto possível, em contato com a leitura construtiva...
Se olvida mágoas sinceramente, mantendo um espírito compreensivo e cordial, à frente dos ofensores...
Se você se aceita como é, com as dificuldades e conflitos que tem, trabalhando com tudo aquilo que não pode modificar...
Se persevera na execução dos seus propósitos enobrecedores, apesar de tudo que se faça ou fale contra você...
Se compreende que os outros têm o direito de experimentar o tipo de felicidade a que se inclinem, como nos acontece...
Se crê e pratica o princípio de que somente auxiliando o próximo, é que seremos auxiliados...
Se é capaz de sofrer e lutar na seara do bem, sem trazer o coração amargoso e intolerante...
Então, você estará dando passos largos para libertar-se da sombra, entrando, em definitivo, no trabalho da autodesobsessão.

André Luiz
Psicografado pelo médium Francisco Cândido Xavier, extraído da obra “Passos da Vida”